
Após um tempo, todo mundo para pra pensar e percebe que, sem perceber, percebeu já a muito tempo que havia feito tudo errado.
Gabrielle estava triste, sim, quando disse todas aquelas coisas. Porém, sabia o que estava fazendo. Saiu de seu lar - lar, porque aquele quarto escuro não a pertencia realmente - e andou. Simplesmente, porque não havia mais o que fazer. Já havia passado a noite inteira se perguntando porque, porque ele, porque ela, porque sim, porque não. Aconteceu, era isso.
Assim, através das mangueiras, macieiras, laranjeiras, e guarda-chuvas ainda não nomeados, Gabrielle andou, percebendo, percebendo-se.
No caminho, não viu pessoas, mas almas. Não viu objetos, viu obstaculos, e viu historias, viu verdades, viu o ceu, deitou-se no chão, viu as nuvens, viu ovelhas, viu seu coração viajando pelo vasto mar anti-gravitacional aonde não nadavam peixes, mas sim sonhos.
Assim é a vida - disse alguém ao seu lado - você não a ver se mover, mas a ve passar. Não pode pará-la, não pode alcançá-la. Apenas observar e aprender, às vezes.
E a pessoa estava bem certa, Gabrielle não pode deixar de concordar. Assim, o dia virou noite, e ali mesmo, adormeceu Grabrielle, que casa não mais possuia, pois casa, para ela, era aonde ele estivesse. Gabrielle, que não mais acordaria, adormeceu naquele lugar, com maçãs e ovelhas sobre sua cabeça, apenas. Gabrielle, que havia sempre sonhado em nunca mais sonhar, adormeceu naquele mesmo lugar, com esperanças de que, algum dia, ela soubesse para onde estava indo quando deixasse seu lar.