Acabei, no meio da confusão que é estar sozinha, por lembrar da morte da minha tia avó.
Foi a alguns anos atrás, eu era nova ainda, mas já sentia falta.
No dia do enterro, um homem que ninguém conhecia chegou cedo. Como de inevitável, contou sua história. Simples. Já quase foi seu ex namorado, mas pisou na bola. "Nós eramos muito próximos. Ela me conhecia, por isso não me confiava".
Em sua história (porque nunca tive a chance de ouvir a versão já morta) ele se casou, teve filhos, trabalhou. Sorriu várias vezes. Acabou virando viúvo. Dispensou sorrisos várias vezes também, mas chorar nem tanto. "Tive uma vida boa".
"Mas nunca deixei de amar Nhanha".
Me lembro de pensar que era bem a cara da minha tia mesmo nunca mais olhar na cara dele. Minha tia não era gagá. Ela não era triste, mas era incompleta. Era teimosa. Morava com a irmã e o genro desde sempre. Mas a falta de marido e filhos não era o que a incompletava. O negocio é que tinha gente que nem ligava pra minha tia, ela nem ligava pra essa gente também. Mas tinha gente pra quem ela ligava, e eu tinha muito medo de dizer algo errado, porque, pra essa gente, minha tia era de vidro. Se quebrasse a gente até remendava, mas ia ser café requentado.
Ele a quebrou, aparentemente.
10 anos depois da viuvísse, 60 anos depois da briga, o moço estava lá, mais do que desorrindo. Eu não o conhecia, mas não me parecia o tipo de pessoa que iria sozinho, vez sim vez não, botar uma florsinha na lápide de alguém de quem ele não sentia falta.
E no meio dessa confusão que é estar sozinha, eu só não quero ser minha tia, nem o moço.
Nhanha foi feliz. O moço foi feliz. Mas nenhum dos dois viveu a vida. Foi vazio de coisas ruins e boas o suficiente pra derramar lágrimas, nos dois casos. Não eram más pessoas, eram pessoas maduras demais pra sonhar, certas demais pra tentar, cansadas demais pra voltar atrás.
E é, certas coisas são pra sempre. Os poetas sabem disso, os idosos sabem disso. O jovens que já se apaixonaram e desapaixonaram 30 vezes só na semana passada não sabem disso porque não viram o suficiente da vida pra saber que o que vale a pena de verdade não é bom o tempo todo.
Se eu soubesse, não teria tentado ser mais madura. Teria seguido minha vida longe do trilho naquele mês, e quem sabe não teria perdido minha chance de ficar no lugar infinitamente mais bonito do que a estação (que eu já encontrei).
Perdi.
Mas não parei de acreditar que vou desperder um dia.
E por enquanto, pra quem duvida: quantos anos tem quem nunca viveu a vida?
sábado, 10 de novembro de 2012
segunda-feira, 19 de março de 2012
Pra Parar e Pensar
e se isso me faz feliz
que que tem?
sorrir que
a
vida
é bela
cair que ficar
em pé cança
a
vida
é bela
cair que ficar
em pé cança
e que não
ficar
pra
trás
ficar
pra
trás
dança!
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
qu
hoje dei meu último suspiro
assim, de manhã
estranho
que no fundo
tava tudo bem
finalmente, até
eu diria
e agora, um acúmulo de canções
no chão, de lado
pra quem for ouvir
que pra quem eu quero
morri
assim, de manhã
estranho
que no fundo
tava tudo bem
finalmente, até
eu diria
e agora, um acúmulo de canções
no chão, de lado
pra quem for ouvir
que pra quem eu quero
morri
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Agosto
Num momento de amargura
um lapso de loucura
me refaz
Pouco importa o inferno
que me espera
quente,
aconchegante,
drástico,
meu.
Renuncio hoje a esperança
a dança
é o amor que me tens,
e eu a mais ninguém
[que eu queira.
um lapso de loucura
me refaz
Pouco importa o inferno
que me espera
quente,
aconchegante,
drástico,
meu.
Renuncio hoje a esperança
a dança
é o amor que me tens,
e eu a mais ninguém
[que eu queira.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Calor
Porque, sabe, é Verão.
Mas sabe que que tem se é Verão?
É só Verão, gente.
Tem morte também no Verão.
Mas sabe que que tem se é Verão?
É só Verão, gente.
Tem morte também no Verão.
sábado, 12 de março de 2011
Lembraça dos tempos bons para os tempos futuros
Pernas dormentes
mãos desencontradas
E mergulho na culpa do momento
garganta adentro.
minhas lágrimas.
Uma súplica por perdão.
Mal sabe ele...
Enquanto implora
ela chora.
Amor
para nós dois, amor,
é pecado.
Palavras.
Mais lágrimas.
mãos desencontradas
nariz com nariz.
E mergulho na culpa do momento
garganta adentro.
Seus suspiros,
meus suspiros.
meus suspiros.
Distância.
Seus olhos,minhas lágrimas.
Uma súplica por perdão.
Mal sabe ele...
Enquanto implora
ela chora.
Amor
para nós dois, amor,
é pecado.
Palavras.
Mais lágrimas.
Um estalo,
você se foi.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Da Utopia
e das verdades que não te deixam entrar.
A tempos que procuro e encontro aquele que disse ser o tal,
e tal que quis fazer dar uma volta nesse mundo.
Redondo.
E as curvas
e de lado caio em tuas verdades, de cabeça.
Não há realidade
na cabeceira da cama
e foi lá em que me encontrei.
Eu li o teu livro, tantas vezes quanto pude, e disse que estaria aqui a te esperar.
Eu estive.
Mas não seria assim tão desagradável se fosse embora e me deixasse.
Só mais uma vez.
É tudo o que eu preciso.
Ser deixada
ontem.
A tempos que procuro e encontro aquele que disse ser o tal,
e tal que quis fazer dar uma volta nesse mundo.
Redondo.
E as curvas
e de lado caio em tuas verdades, de cabeça.
Não há realidade
na cabeceira da cama
e foi lá em que me encontrei.
Eu li o teu livro, tantas vezes quanto pude, e disse que estaria aqui a te esperar.
Eu estive.
Mas não seria assim tão desagradável se fosse embora e me deixasse.
Só mais uma vez.
É tudo o que eu preciso.
Ser deixada
ontem.
sábado, 25 de dezembro de 2010
Nicolho

Toda noite, ao se deitar, Nicolau observava o buraco no teto.
Ou melhor, era observado.
Pois a verdade, que só Nicolau sabia, é que no fundo do buraco havia um olho.
E esse olho tudo via. Desde o começo dos tempos, o Olho sempre esteve ali. O Olho tudo conhecia, e Nicolau dizia.
Pensava, na verdade.
O olho era segredo.
Toda noite, Nicolau repassava em sua cabeça tudo o que havia feito, só pra ter certeza de que não tinha passado vergonha na frente do Olho.
E toda manhã, quando acordava, olhava para o teto e se perguntava
cadê
o olho.
Pois ele não aparecia de dia. Não, o olho chegava à noite, com toda a obscuridade do quarto de Nicolau, bem no fundo do buraco, e observava.
Como quem não quer nada.
Tapar o buraco Nicolau não podia. Às vezes sentia mesmo medo do Olho. Ignorá-lo, havia tentado diversas vezes, mas sempre chegava aquele dia em que o Olho o encarava com censura, desapontamento
raiva.
Nicolau sentia medo.
mas nunca havia contado a ninguém
sobre o Olho.
Um dia, no meio da noite, Nicolau despertou.
E o Olho tinha um olhar triste, mas o observava convictamente.
Nicolau observou de volta.
E percebeu que algo se desprendia do Olho. Lentamente, tortuosamente, até finalmente se soltar.
E quando caiu, escorreu pelo nariz de Nicolau e caiu em sua boca.
A lágrima
do Olho.
Uma segunda lágrima caiu. E mais outra. Nicolau nem piscava. E lá pela sétima lágrima, elas simplesmente pararam de molhar.
E se juntaram, e formaram uma corda, cuja ponta parou reta e imóvel bem no centro da testa de Nicolau.
E ele agarrou a ponta e subiu até o teto.
Até o buraco.
Até o Olho.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Hoje é domingo.
Ele podia jurar que antes de ontem foi terça-feira, mas isso nao vem ao caso. Parou já faz tempo de se incomodar com o nome que recebem os dias.
Acordou às 3 da tarde. Almoçou restos de sorvete. Pegou a bicicleta e foi alugar um filme. Acabou comprando um livro com o resto do dinheiro, best-seller, acabou de chegar.
Voltou pra casa, largou o filme e o livro em cima da mesa, foi tomar um banho.
No meio do banho, o telefone toca. Sai do box, pinga por onde passa, escorrega, "Merda", pega o celular que caiu dentro da pia um dia e meio atrás, coloca no viva voz.
- Oh! Ahdaosidhasoidhoasidd dhaosid daish!! Idhasihd?
- Sim, claro, claro! 7 horas? To lá já! Falou!
Joga o telefone de volta na pia e volta pro banho.
Sai de toalha. Veste pijamas, nem penteia os cabelos - não ia mesmo sair de casa.
5 horas. Coloca o filme no DVD. Acorda as 11h30, o filme na metade. Deve ter recomeçado. Tira o filme. Coloca no noticiário. Vai pra cozinha, bebe café gelado direto do bico da garrafa térmica. Volta pra TV. Morte. Muda de canal. Morte. Pega o livro. Morte. Fecha os olhos.
Morte.
Ele podia jurar que antes de ontem foi terça-feira, mas isso nao vem ao caso. Parou já faz tempo de se incomodar com o nome que recebem os dias.
Acordou às 3 da tarde. Almoçou restos de sorvete. Pegou a bicicleta e foi alugar um filme. Acabou comprando um livro com o resto do dinheiro, best-seller, acabou de chegar.
Voltou pra casa, largou o filme e o livro em cima da mesa, foi tomar um banho.
No meio do banho, o telefone toca. Sai do box, pinga por onde passa, escorrega, "Merda", pega o celular que caiu dentro da pia um dia e meio atrás, coloca no viva voz.
- Oh! Ahdaosidhasoidhoasidd dhaosid daish!! Idhasihd?
- Sim, claro, claro! 7 horas? To lá já! Falou!
Joga o telefone de volta na pia e volta pro banho.
Sai de toalha. Veste pijamas, nem penteia os cabelos - não ia mesmo sair de casa.
5 horas. Coloca o filme no DVD. Acorda as 11h30, o filme na metade. Deve ter recomeçado. Tira o filme. Coloca no noticiário. Vai pra cozinha, bebe café gelado direto do bico da garrafa térmica. Volta pra TV. Morte. Muda de canal. Morte. Pega o livro. Morte. Fecha os olhos.
Morte.
domingo, 4 de abril de 2010
Gabrielle Feelings Forever

Após um tempo, todo mundo para pra pensar e percebe que, sem perceber, percebeu já a muito tempo que havia feito tudo errado.
Gabrielle estava triste, sim, quando disse todas aquelas coisas. Porém, sabia o que estava fazendo. Saiu de seu lar - lar, porque aquele quarto escuro não a pertencia realmente - e andou. Simplesmente, porque não havia mais o que fazer. Já havia passado a noite inteira se perguntando porque, porque ele, porque ela, porque sim, porque não. Aconteceu, era isso.
Assim, através das mangueiras, macieiras, laranjeiras, e guarda-chuvas ainda não nomeados, Gabrielle andou, percebendo, percebendo-se.
No caminho, não viu pessoas, mas almas. Não viu objetos, viu obstaculos, e viu historias, viu verdades, viu o ceu, deitou-se no chão, viu as nuvens, viu ovelhas, viu seu coração viajando pelo vasto mar anti-gravitacional aonde não nadavam peixes, mas sim sonhos.
Assim é a vida - disse alguém ao seu lado - você não a ver se mover, mas a ve passar. Não pode pará-la, não pode alcançá-la. Apenas observar e aprender, às vezes.
E a pessoa estava bem certa, Gabrielle não pode deixar de concordar. Assim, o dia virou noite, e ali mesmo, adormeceu Grabrielle, que casa não mais possuia, pois casa, para ela, era aonde ele estivesse. Gabrielle, que não mais acordaria, adormeceu naquele lugar, com maçãs e ovelhas sobre sua cabeça, apenas. Gabrielle, que havia sempre sonhado em nunca mais sonhar, adormeceu naquele mesmo lugar, com esperanças de que, algum dia, ela soubesse para onde estava indo quando deixasse seu lar.
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