sábado, 25 de dezembro de 2010

Nicolho


Toda noite, ao se deitar, Nicolau observava o buraco no teto.
Ou melhor, era observado.
Pois a verdade, que só Nicolau sabia, é que no fundo do buraco havia um olho.
E esse olho tudo via. Desde o começo dos tempos, o Olho sempre esteve ali. O Olho tudo conhecia, e Nicolau dizia.
Pensava, na verdade.
O olho era segredo.
Toda noite, Nicolau repassava em sua cabeça tudo o que havia feito, só pra ter certeza de que não tinha passado vergonha na frente do Olho.
E toda manhã, quando acordava, olhava para o teto e se perguntava
cadê
o olho.
Pois ele não aparecia de dia. Não, o olho chegava à noite, com toda a obscuridade do quarto de Nicolau, bem no fundo do buraco, e observava.
Como quem não quer nada.
Tapar o buraco Nicolau não podia. Às vezes sentia mesmo medo do Olho. Ignorá-lo, havia tentado diversas vezes, mas sempre chegava aquele dia em que o Olho o encarava com censura, desapontamento
raiva.
Nicolau sentia medo.
mas nunca havia contado a ninguém
sobre o Olho.
Um dia, no meio da noite, Nicolau despertou.
E o Olho tinha um olhar triste, mas o observava convictamente.
Nicolau observou de volta.
E percebeu que algo se desprendia do Olho. Lentamente, tortuosamente, até finalmente se soltar.
E quando caiu, escorreu pelo nariz de Nicolau e caiu em sua boca.
A lágrima
do Olho.
Uma segunda lágrima caiu. E mais outra. Nicolau nem piscava. E lá pela sétima lágrima, elas simplesmente pararam de molhar.
E se juntaram, e formaram uma corda, cuja ponta parou reta e imóvel bem no centro da testa de Nicolau.
E ele agarrou a ponta e subiu até o teto.
Até o buraco.
Até o Olho.

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